Wednesday, February 06, 2008

Cada vez que vem de novo

Para quem consegue sobreviver nessa vida de incertezas talvez não seja tão terrível se deparar com as repetições. Elas marcam uma espécie de circularidade, um eterno retorno que conforta, dá uma sensação de familiaridade nesse mundo de sobressaltos. O que se pode reconhecer, afinal, não pode exercer mais seu pleno domínio. Quando muito chega como um estranho domesticado, um inimigo íntimo, como dizia aquele dramaturgo.

Mas também o preço a pagar parece ser diretamente proporcional ao grau de redundância: quanto mais o mesmo se expressa, mais aborrecido é continuar nessa tocada. De tal forma que a escolha fica sendo entre o susto e o enfado. Se fosse filme, entre o suspense e a comédia de costumes.

Como a espécie humana (ou uma facção influente dela) parece hábil na negociação, uma solução intermediária foi barganhada de forma obscura, talvez corrupta. Há uma suspensão da crítica e das ilusões e tudo o que se poderia identificar como próximo aparece como desconhecido, longínquo. Um auto-engano consentido, mezzo consciente mezzo sonâmbulo. Se fosse filme seria de aventura, cheio de ação e reviravoltas, ou uma comédia romântica, com desencontros e encontros. Em ambos haveria um acordo tácito, um compromisso de final feliz. Porque já se sabe tudo de antemão. Só não se conta para não perder o encanto.

As repetições são um caldo de covardia. Imobilidade no certo contra movimento no duvidoso. Descanso em carrossel. Alimentam para melhor entorpecer; se exibem com arrogância para então retrair sem a menor compostura.

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foto: detalhe do Jardim Botânico em São Paulo, por Ricardo Imaeda

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[originalmente publicado em blog anterior no Livejournal]

1 comment:

Roberto Noritomi said...

E no entanto sempre desejamos que nosso lar esteja onde o deixamos quando saímos pela manhã.