Friday, July 10, 2009

Um lugar melhor

[ao som de ‘Heal the world’, de M. Jackson]


Ouço ainda, sem parar, a melodia que flutua como conforto nos dias em seguida, sem apagar. Foi assim algum tempo, muito tempo, através de ruas de destino incerto, olhos fixos em contas a vencer. Enquanto nas linhas da canção uma simpatia vingava frágil, insistente. Balançava a cabeça, negava o que não poderia suportar. E marcava o ritmo de um passo para fora.

E cantava baixinho sem saber a letra ao certo. Agora que as vozes findavam mais cedo. Ainda cantava.

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foto: praça do pôr do sol, no Alto de Pinheiros, São Paulo, por Ricardo Imaeda

Wednesday, July 01, 2009

Da passagem sobre a Terra


Talvez nem seja assim tão doloroso ou parecido. Pensar que alguma coisa fica depois do sopro findo. Traços do que um dia se escreveu, plantou, construiu. Sobreviver na memória sem restos físicos, apenas como inspiros. E assim ocupar um tempo de outra esfera, absoluta. Nas horas que se gastam dorme uma paz em volta de uma espera.

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foto: detalhe da rua Diógenes Ribeiro de Lima, no Alto de Pinheiros em São Paulo, por Ricardo Imaeda

Wednesday, June 24, 2009

Uma existência saudável


Um dia para agradecer à Terra, às árvores, aos animais, aos minerais. Para reconhecer neles minha face, minha verdadeira natureza.

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foto: detalhe do bosque do parque Burle Marx, na zona sul de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Tuesday, June 16, 2009

Em uma tarde de outono



Ela dança com seu filho no colo. Ainda é bem jovem e parece reviver noites de solteira diante da avenida. Ao seu lado, mas um pouco atrás, está o marido, com uma mochila cheia de produtos para a criança. Ele parece não se mexer – ‘tough guys don’t dance’. Também é jovem, embora talvez a paternidade lhe tenha subtraído um pouco da leveza. O pai, afinal, precisa mostrar a solidez de um guardião.

Contraídos no espaço mais junto ao prédio, de alguma forma eles se divertem em resposta ao som invasivo que amplifica as batidas dos corações. Nas estocadas em ritmo pesado na calçada poderiam sentir um pouco do seu tempo livre deslizando em meio a tanta gente desconhecida.

A dança acaba, o menino volta aos braços da mãe, o pai começa a andar embora. Vai a família, na mesma paz em que chegou.

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foto: detalhe da avenida Paulista, na região central de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Friday, June 12, 2009

O que falta


A despensa está quase vazia, como a geladeira. Faltam escolhas para o dia, mas tanto faz. Mais trabalho seria encher as prateleiras, colorir de intenso as portas que se abrem. Mais doloroso, talvez.

Os restos ainda estão inteiros e é com eles que continuo a contemplar o espaço imenso entre o esquecimento e os sabores em dissolução.

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foto: fábrica abandonada no bairro da Mooca, zona centro-leste de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Tuesday, June 02, 2009

É só o vento lá fora

[ao som de ‘Bird on a wire’, de e com Leonard Cohen]

Pode ser apenas por mais alguns minutos, enquanto não saem de cena as imagens de um passado de uma outra pessoa. Afinal, parece isso: qualquer outra pessoa, quase totalmente desconhecida. Os fantasmas são dela, os sofrimentos, memórias, e alegrias talvez.

Essas não são bem invenções de alguma noite sem televisão ou rádio. Quem não pensou nem falou sem sentir deixou a rua deserta, em noites sem comemoração. Deixou portas fechadas a leves toques. Com muitos segredos estocados querendo pular. E ainda não contente, espremeu o tempo que restava em pé para caprichar nos desenhos que guardaria ao fim de mais um dia.

Olharia para tudo com pouca sede, pouca esperança. Na desordem que o passaria para trás, como todas as outras vezes. Fecharia de novo as portas, sem encontrar os retalhos nada mais. No que vagaria passos sem ritmo nem voz, no que tocaria fundo cada nota da música que jogaria terra a seus pés.

[Ouvir Leonard Cohen na coletânea da série ‘The essential’ é partir para um encontro com aquele amigo que nunca se vai ter. Que o abraça na compreensão iluminada, que o reconhece e faz viver]

Thursday, May 28, 2009

Arte traumatismo


Quando se estuda não se cria, ele pensa. Afinal, toda vez que está imerso em um curso é como se as vias se obstruíssem, a expressão calasse. Mão única para receber ou a vigía exagerada na crítica de si mesmo. O olhar se espalha na multiplicidade do que parece não caber mais no trabalho que se fazia. Oficinas demais, tentativas paradas.

Existem os outros, é verdade. Que absorvem, que não entendem. E também compõem, com seu passo, um corpo estranho no seu drama.

Volta aos seus mesmos conhecidos enquanto a crise não o espreme. Um parco legado de rascunhos que caminham.

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foto: interior da igreja Nossa Senhora Aparecida, na avenida Brasil, na zona sul de São Paulo, por Ricardo Imaeda