Friday, November 23, 2007

Do alemão quase latim

Um dos prodígios sonoros de J.S. Bach ressoa a cada nova audição de sua obra para vozes humanas. Em qualquer de suas extraordinárias cantatas, motetos ou missas, o ouvinte pode se dar conta de uma verdadeira mágica transfiguradora além do prazer da música em si. O gênio criador desfia uma sintaxe melódica que consegue limar as pontas e arestas rascantes do idioma alemão. Tal é a façanha que quem ouve chega a pensar que as peças são cantadas em latim. O texto flui com uma liquidez sem crise ou colisões. Bach parece se abastecer de outra fonte e, ao compor, verte uma natureza alterada de seu próprio idioma: mais esguia e toante. Mesmo Schubert e Schumann, em seus belos lieder, não lograriam vencer as escarpas da língua.

De Bach sempre se ganha muito. Como na cantata BWV 140, ‘Wachet auf, ruft uns die Stimme’, de frases longas, encadeadas e intensas, que celebram o casamento da alma com o salvador. Mais do que testemunhas somos envolvidos em uma sedução serena, dupla humana e angelical. Uma experiência palpável do sublime. Ao contrário dos detratores do paraíso (os que o condenam como aborrecido e entediante), Bach nos oferece uma vivência de descobertas e vibrações a cada nova nota.
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Quem estiver em São Paulo tem a oportunidade de assistir ao concerto regido pelo maestro Roberto de Regina, com o Coral Paulistano e solistas da Orquestra Sinfônica Municipal, dia 24, no Teatro Municipal. O programa inclui três cantatas (BWV 4, BWV 131 e BWV 140) e o moteto Singet dem Hern.

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:foto: prédio do Instituto Goethe, antes ocupado por um convento, nos altos da rua Lisboa, em São Paulo, por Ricardo Imaeda

1 comment:

Roberto said...

Espero amanhã passear pelas cantatas e inebriar-me.

Abraços...