Sunday, March 18, 2007

Promessas no ar

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De dentro do ônibus no Fura-Fila a cidade parece ainda mais obscura. A via elevada trafega por sobre o vale do rio Tamanduateí, em meio a galpões industriais e ao acúmulo de construções decaídas. Não há horizontes agradáveis nem convidativos. O trajeto parece confirmar a impressão de um caminho de obrigações e necessidades. Nem a cor amarela da estrutura anima muito o passageiro. A velocidade é pouca. Só se quer chegar.

Mas em algum ponto, entre a Vila Prudente e o Ipiranga o cheiro de bolo recém assado invade o veículo e toda a redondeza. Será de alguma fábrica? Alguma padaria? O aroma é forte e condutor. Faz imaginar os doces de uma paz culinária, embrenhada em um passado suave. Fornos e mesas, pães e biscoitos. Um chá da tarde, café, visita amiga. Esse cheiro intenso deve ser mais gostoso do que o próprio sabor. É a única força que desvia o ônibus de seu roteiro de inospitalidades.

Procuram em vão pela origem do cheiro, do bolo. Eles são de todo inalcançáveis. Não estão apenas fora do ônibus. Eles passam.

1 comment:

Roberto Noritomi said...

O cheiro do bolo parece ter envolvido o post ...