Thursday, March 08, 2007

Chuvas são quitações de dívidas

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É muito difícil ler Beckett.

Não pela construção das frases, tão límpidas e diretas na sua concretude. Mas pela atmosfera: um misto de rarefação e densidade, que repesa a cada nova pausa. As cenas são cotidianas e quase nada acontece em seus textos. Ninguém parece saber o que vai sobrevir e, no entanto, segue com sua rotina sensabor. E é essa insipidez o que afasta. Não se quer o que não se apresenta ao gosto.

Mas, ao mesmo tempo, é esse autor que tão bem captou o abismo, a deliqüescência do que foi humano. Do que patina insosso e não grita mais porque se esgotou a energia ou a conformação já rasteja altaneira.

Nesses dias de aridez há espelhos demais. Todo grão de areia parece vitrificado. Ofuscante. Inclemente. Faz clamar por qualquer chuva.

4 comments:

Rubens da Cunha said...

Obrigado Pela visita em minha casa de paragens.
hospede-se sempre que quiser.

abraços
Rubens

Claudio Eugenio Luz said...

Há um excelente livro sobre beckett pela josé olympio, escrito por ludovic janvier.

hábraços

Cabaret Voltaire said...

Com estes dias de sol, mais a areia arde, mais os espelhos se multiplicam. Preciso ler Beckett.

Simone Oliveira Lima said...

beckett é sempre bem vindo!
especialmente em tardes chuvosas...
abraço!