Friday, October 13, 2006

embarca, embora











Sempre que estou em uma stação de trem é o acordeon que parece vir para acompanhar a espera. Não sei se é uma influência de Gato Barbieri e suas trilhas de cinema. Mas o som rascante e doce, as notas prolongadas com o fole se abrindo, a atmosfera de um passado alheio, tudo parece compor adequadamente essa hora. Uma suspensão quase forçada de tempo antes do embarque. Porque o sentido das estações de trem está no embarque.

Talvez não o ritmo quebrado e vigoroso de um tango tradicional. Ou o alegre vibrar do baião. Talvez o acordeon ecoe mais a sonoridade de uma canção parisiense ou de uma seresta do interior paulista. Traz uma tensão leve, suportável, que captura o ouvinte para sua história. Convida para um terreno estranho, chão que se move e deixa intranqüilo, mas ao mesmo tempo conforta com seus acordes compassivos.

Nas estações a solidão é mais amena. Tem o sentido de uma passagem. Escuridão com fundo. De uma cidade que mal se reconhece, do movimento dos que migram. Não buzinas nem sirenes. Conversas destoantes. E aquele som.

[O belo show de Mônica Salmaso (voz) e Toninho Ferragutti (acordeon) está em cartaz no Teatro Fecap, Liberdade, São Paulo, até o dia 22]

2 comments:

Assim é, se lhe parece said...

engraçado... eu ouço (em estações) um murmuro frio, que gela... igual um sopro... Talvez seja as notas de Eic Dolphy...

sandra said...

Bom saber que "nas estações a solidão é mais amena"!! Adorei!! Vim aqui à procura de um poema seu Vou continuar a busca... se não encontrar aqui, vou pedir que poste!! meu beijo admirado...