Por muito tempo acreditou que algo mágico acontecesse naquelas datas. Algum presente esperado ou não, com poderes para transformar o curso dos dias iguais, trazer um sentido novo ou força para seguir.
Por muito tempo acreditou que algo extraordinário viria se conseguisse entrar em meditação. Algum saber, talvez apenas sentimento, diferente, misterioso, que abriria a mente e traria novos sentidos para a vida.
Passaram-se estações de aridez e ceticismo, em que qualquer possibilidade de mudança era recebida com indiferença. Mas foi assim, na distensão do desejo e da espera, que ele percebeu os dias amanhecendo com uma irreconhecível serenidade.
:: foto: Conjunto Nacional e edifício do Banco do Brasil na avenida Paulista, em São Paulo, por Ricardo Imaeda
[ao som de ‘Paciência’, de Lenine e Dudu Falcão: ‘a vida não pára... a vida é tão rara’]
Notícias ruins continuam a bater à porta na periodicidade de jornais. Muitas vezes como ameaças, antecipações de infortúnios. Ainda se aproximam mais do distraído, fazendo o circuito de profissionais. Elas só se comprazem com o tormento dos outros. Na desgraça dos aflitos parecem querer encontrar um pouco de paz.
Nuvens sem diluição.
Mas se desequilibram, também estendem luz para aquele que contempla, na profundidade do que contempla.
Estes são dias para verdadeiramente ver e acordar. Feliz Natal.
:: foto: detalhe da via expressa marginal Pinheiros, região sudoeste de São Paulo, em noite de quase garoa, por Ricardo Imaeda
[ao som do prelúdio da Bacchiana Brasileira 4, de H. Villa-Lobos, na versão de Egberto Gismonti]
Depois de uma viagem de trem ao lado do rio Pinheiros, em direção ao rio Jurubatuba, com a cidade sempre em volta, e de uma caminhada de pouco mais de um quilômetro, a tarde ganha outros tons e uma nova atmosfera. Não mais o ranger frenético das rodas e negócios, mas o escoar simultâneo da pessoa e do tempo.
:: foto: lago Guarapiranga, a partir da margem norte, no bairro do Socorro, zona sul de São Paulo, por Ricardo Imaeda
Não é bem cair na tentação do consumo desmotivado. Andar em meio a tanta gente que compra às vezes dá certo conforto. Um a um poderia ser alguém conhecido, com quem se conversou em rotinas de trabalho ou fila. Talvez um rosto da infância.
Nessa época do ano eles parecem se animar a sair de casa, adensar as ruas. Nem que seja por um rito automático de trocas. E mesmo nos seus movimentos de busca alguma coisa de inesperado pode sobrevir.
Há um conforto além da oferta variada de produtos. Ou da simples presença de outros, ainda que indiferentes. Eles compõem um cenário flutuante, no limite entre a inconsciência e a ilusão. São como o sono a quem está cansado.
:: foto: interior do Conjunto Nacional, na avenida Paulista, em São Paulo, por Ricardo Imaeda
Agora estava em movimento. Não fazia diferença se a paisagem não mudasse. Sua percepção o levava para longe. Tinha arrumado os papéis e objetos do passado em caixas, estocadas em fundos de armário. Dos registros apenas o que havia transbordado em gesto, ação.
Sem história, sem desejo era como se deslizasse pelas ruas de uma cidade ainda desconhecida.
:: foto: estação de metrô Alto do Ipiranga, no bairro do Ipiranga, em São Paulo, por Ricardo Imaeda
Foi mais um cansaço. Pode ter passado, assim como outros, das vezes em que lhe chamei, acenando com ingressos para algum espetáculo.
Não sei com quantos cansaços se faz uma espera. Eles se gastam, como as horas, os pisos, por onde andarei mais e mais, contando janelas, contando as vezes. E lhe abandonarei.
:: foto: detalhe do edifício Sampaio Moreira, no centro de São Paulo, por Ricardo Imaeda
[ao som de ‘Here comes the sun’, de George Harrison, na voz emocionante de Nina Simone]
Em ‘O caminho para Meca’, vemos Helen cada vez mais fragilizada, na iminência de não mais poder cuidar de si mesma. Sentindo-se pressionada a mudar para um asilo, ela se contrai, curvada à mesa, quase desabando sobre uma vela. Na sua deriva imóvel ao destino ela nos arrepia as cordas da compaixão.
Não demora muito e do que parecia desoladamente perdido ela se levanta para falar sobre a sua arte que, como as velas que acendia, a ajudavam a confrontar o medo, e o medo da escuridão. Agora sua voz vem firme, as velas em punho, no percurso que ainda lhe resta.
Suas esculturas iluminam um caminho em meio a toda a incompreensão e intolerância que a sua diferença provoca. As velas que ela abraça tremem ainda, a sala anoitecida, enquanto olhamos em defesa do que parece minguar, parece apagar, mas resiste.
: [Cleyde Yáconis brilha intensamente na peça ‘O caminho para Meca’, um texto forte de Athol Fugard, em cartaz no teatro Jaraguá, em São Paulo, de sexta a domingo. Durante o mês de novembro está com preço promocional na campanha da Apetesp]
:: foto: detalhe de painel de Di Cavalcanti na fachada do prédio do hotel e do teatro Jaraguá, no centro de São Paulo, por Ricardo Imaeda
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