E existem todos esses tempos alongados de uma espera sem motivo, sem saber. Dias mais dias em que não se faz nada de progressivamente útil, produtivamente acumulável. As chances nem vêm nesse fundo de vale.
O passado às vezes o agita, tantas vidas ensaiadas, esboços incompletos. Assim os reencontra em páginas e rostos ao acaso. Em parte, mais em mais, em parte.
:: foto: chuva se aproxima da Biblioteca de São Paulo, no Parque da Juventude, zona norte de São Paulo, por R.I.
Com quantos renascimentos se pode contar, quantas novas vidas para renascer em terras tão longe? Ou aqui mesmo, neste lugar que passa a se não reconhecer, estranho com uma cara por demais conhecida? Quanto fôlego é preciso abastecer para seguir, simplesmente seguir...
E quase não se acredita mais que ainda existe alguém, alguma coisa, algum caminho.
E então se respira, e respira.
:: foto: jardim do Memorial do Imigrante, na Mooca, em São Paulo, na véspera de seu fechamento para longa reforma
Não adianta o incessante movimento de carros, nem o vazar de horas. A fala intensa da mente vai se aquietar agora que os passos se tornam mais lentos. No vazio sob os pés se iluminam fachos de saída.
:: foto: trecho da Radial Leste, a partir do viaduto da Glória, no bairro da Liberdade, em São Paulo, por R.I.
Primeiro foi o medo, esse fascínio da queda e do desconhecido. Por muito tempo restou apenas como força de arrasto. Passava em volta de todos os gestos e pensamentos, pendendo em sombras, os prazos perto do fim.
Depois foi a espera, qualquer coisa mais sem forma que os dias. Qualquer voz, o anúncio da chegada, mas logo então o desmentido, e mais uma vez.
Agora, o espaço de ar expandido. Nada mais sufoca. E a casa deixa de respirar.
:: foto: deslizar elegante de uma raia no Aquário SP, no bairro do Ipiranga em São Paulo, por R.I.
Por que ele diz tanto sobre si mesmo? Parece só ver espelhos onde alcança. Talvez queira ser o heroi de seu canto, no desfile de palavras que puxa para a superfície. Que destino lidar com palavras. Matéria prima, matéria finda. Trazidas de volta à vida perdem voz na prisão do poeta.
Assim passaram dias e meses sem notícias. Como se tivesse partido, história finda. Meses, anos. Não foi por palavras nem gestos. Apenas uma canção que ressuscita na pesquisa da memória. No acaso de encontros improváveis, vozes cada vez mais distantes.
:: foto: detalhe de quiosque na praça Antonio Prado, no centro de São Paulo, por R.I.
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