Saturday, December 08, 2007

I

No caminho para El Morado, por entre o cânion do Rio Maipo, à beira da estrada as tiendas vendem fósseis para os turistas. Seriam restos de animais marinhos encontrados no alto da Cordilheira dos Andes. Como se sabe, toda essa região foi antes submersa, fazendo parte do fundo do Oceano Pacífico. No entrechoque das placas tectônicas ela se elevou, formando a cadeia de montanhas.

Imaginar fósseis como recuerdos à venda causa incômodo e provoca reflexão. Ao contrário das barracas da periferia de Lima, Peru, onde o artesanato de inspiração pré-colombiana é o destaque, aqui são remanescentes de seres vivos a atração principal. Não mais como matéria de estudo científico, mas como peças de contemplação, para lembrar da passagem por um lugar. Ossos ou partes deles, ex-orgânicos, mineralizados. Cadáveres feito coisas como marcadores de um sopro de vida em um sítio remexido depois de milhares de anos.

As montanhas da pré-cordilheira logo em frente parecem áridas, inóspitas. Mas ao longo do rio revolto os ciprestes e outras árvores contrastam com sua vivacidade. E o viajante se lembra que nesse vale florescem alguns dos vinhedos mais valorizados do país. A paisagem do aqui e agora já basta para nos confrontar com as transformações em curso. Da vida em constante mudança.

Não paro para sequer olhar para os fósseis. Eles já são outros.

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[A palavra do título deve ser compreendida como uma alusão intercultural em seus vários sentidos atravessados. Em inglês é o pronome na primeira pessoa do singular. Mas em mandarim, na sua transcrição para o alfabeto romano, significa transformação, mutação, como no clássico taoísta ‘I Ching’, o livro ou tratado das mutações]

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foto: cânion do Rio Maipo, Chile, verão de 2006/07, por Ricardo Imaeda

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2 comments:

Pode me chamar assim... said...

Muda tanto... e às vezes parece que não muda nada.

Pode me chamar assim... said...

Muda tanto... e às vezes parece que não muda nada.