Friday, April 20, 2007

1 h 59 min

::

É como se viajasse em um ônibus de dois andares. A maior parte do tempo no andar de baixo, atarefado, em constante movimento, olhando para todas as direções, enquanto ele roda para um destino desconhecido. Vez outra, sobe ao andar de cima, de onde as questões do dia-a-dia perdem a gravidade, na desaceleração que as verdades mais profundas impõem. De lá a jornada parece menos turva e por isso pode querer continuar, mas o passageiro se emaranha mais e mais no enevoado do térreo que, afinal, é o que o sustenta. Ou pode ser seduzido pela paixão do salto, um soltar mais largo que toda a superfície em que trafega quase insano.

Esse ônibus não tem paradas. Algumas vistas confortam, consonam, conformam. Permitem respiros que o fazem até mesmo viajar em outros terrenos, que o divertem, e o animam a seguir no itinerário.

Sua passagem, sente, já teria sido compensada por essas experiências. Agora seria o momento de forçar uma saída. Começa a pensar no lugar certo em que o abandonaria. E é quando as paisagens que fita se amontoam em um painel de familiaridades. Aquelas mesmas ruas e situações. Aquilo lhe dá um enjôo, um cansaço. Não sabe mais o que fazer. Mas continua.

::

2 comments:

Ana Paula said...

Acho que sou passageira nesse ônibus...

Fábio Pinheiro said...

Olá Ricardo. Obrigado pela visita e comentário. Gostei muito daquí, escrita limpa. Volto pra te ler melhor. Também estou no ônibus, queria não desejá-lo. Como diz a canção: 'What's the buzz/Tell me what's a happening?'