Em um experimento conduzido há pouco cientistas constataram que neutrinos viajaram a uma velocidade superior à da luz, contrariando um pensamento até então tido como uma verdade absoluta.
Talvez para muitos essa informação seja irrelevante, não modificando nada na sua forma de viver a vida. Afinal, o que representariam essas partículas minúsculas em meio à enormidade de seus problemas? Mas saber do questionamento de uma certeza tão fundamente arraigada pode fazer estremecer outras tantas. Abre possibilidades onde antes apenas paredes se estendiam. Intuições em meio às palavras. Alguma chuva depois de baixas umidades relativas do ar.
Não perder ou perder pouco. Talvez seja isso que o tenha guiado em meio ao caos desses anos todos. As linhas se rompendo, pessoas desaparecendo. Sem mais a espera de outros tempos. E nem mesmo a nostalgia. Devia ser essa a experiência do deserto: terra seca para alma desidratada, miragens despidas pela desconfiança.
Assim era, como há muito agora.
:: foto: detalhe do marco zero, na praça da Sé, centro de São Paulo, por R.I.
Olhando em retrospecto, várias vezes ao longo da vida esteve diante de encruzilhadas. A cada escolha o percurso poderia mudar completamente. Tantas vezes a história poderia ter terminado ali, depois de pouco tempo. Quantas possibilidades ficaram sem nascer, memórias sem dono nem esperança. Mas inteiras.
E a biografia foi se completando, tintas secas por vales cadentes. Em novas visitas mais gastas que redivivas. Mais paisagens que não podem ser tocadas, nem abandonadas. Presentes.
A trilha não experimentada é um fantasma. De óculos. Assombração que devora humores das estações.
:: foto: segmento da estrada Cunha-Paraty em dia de chuva, por R.I.
Nos livros e filmes as grandes mudanças na vida vêm quase sempre acompanhadas de deslocamentos no espaço. Parece que a viagem para lugares distantes, ou apenas diferentes, funciona como um sinalizador inequívoco de que uma transformação de fato ocorre. O ambiente espelha o interior.
Perder-se em uma cidade, oferecer-se a toda sorte, funciona como um ato purificador – um ritual de renascimento. Assim devem querer os autores. Mas quem olha para o mutante talvez o perca em suas escolhas, suas dúvidas. Ignorará a jornada, ainda que perceba o refugiado. Ao outro persistirá a superfície, a face. Em parte do que será de novo o outro.
Será possível mudar sem vencer a barreira da pele? Sem se mover dos limites habituais, sem sair dos espaços conhecidos?
Aquele que procura parece estar um pouco além do aqui hoje. Ao mesmo tempo andou e ficou. Seu olhar parte, a paisagem ganha novo sentido. Tudo se mexe, cada coisa volta a seu lugar. Olha com estranhamento, senta-se e toma um chá enquanto pássaros cantam ao fundo.
:: foto: cúpula do orquidário Ruth Cardoso, no parque Villa-Lobos, zona oeste de São Paulo, por R.I.
Contra o ritmo veloz do fazer humano, o caminho. Diante dos dias reduzidos a minutos, me lembro de atentar para os passos, voltar aos respiros. A cidade com que tanto simpatizo precisa de tempo. De espaço para que o desequilíbrio possa se alargar em quedas, que dores se diluam na profusão dos outros afetos. Enquanto passam os tormentos. Fluentemente passam.
:: foto: pedras no percurso da cachoeira e do rio Pinhalzinho, em Joanópolis, estado de São Paulo, por R.I.
Que o café que absorves em silêncio possa sustentar a clareza e a luz que irradias, ainda que febre e tropeços arranhem pelo caminho. Mantenha-te alerta na disposição com que alegras noites e dias dos que compartilham teus passos. Acolha e aconchegue nas horas escuras com seu vigor para ajudar nas travessias.
Abraço forte.
: para A. com carinho e compaixão
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foto: detalhe do mini cafezal no Memorial do Imigrante, Mooca, São Paulo, por R.I.
As cenas ganham peso e significado através da câmara de Terrence Malick. Em ‘A árvore da vida’ cada pedaço do mundo passa a nos pedir mais atenção. Talvez não para caber em explicações, ainda que muitos espectadores assim o queiram. Mas simplesmente para lembrar que as coisas vão além do que se costuma pensar. Além das frações de segundo que a elas costumamos dedicar.
Olhar para as árvores como mais do que árvores, mais do que vidas. Para as águas, para a terra. Mais do que natureza, mais do que graça. Talvez mais do que comporte a tela, suporte a vida. Como um mistério em toda a sua simplicidade. Que só exige um pouco de tempo a mais para que possa se manifestar.
:: foto: crepúsculo a partir da praça do por do sol, no Alto de Pinheiros, São Paulo, por R.I.
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