Monday, September 26, 2011

Seco, sem ilusões

Não perder ou perder pouco. Talvez seja isso que o tenha guiado em meio ao caos desses anos todos. As linhas se rompendo, pessoas desaparecendo. Sem mais a espera de outros tempos. E nem mesmo a nostalgia. Devia ser essa a experiência do deserto: terra seca para alma desidratada, miragens despidas pela desconfiança.

Assim era, como há muito agora.

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foto: detalhe do marco zero, na praça da Sé, centro de São Paulo, por R.I.

Wednesday, September 21, 2011

Cá, longe

[ao som de ‘Mistake’ de Moby]

Olhando em retrospecto, várias vezes ao longo da vida esteve diante de encruzilhadas. A cada escolha o percurso poderia mudar completamente. Tantas vezes a história poderia ter terminado ali, depois de pouco tempo. Quantas possibilidades ficaram sem nascer, memórias sem dono nem esperança. Mas inteiras.

E a biografia foi se completando, tintas secas por vales cadentes. Em novas visitas mais gastas que redivivas. Mais paisagens que não podem ser tocadas, nem abandonadas. Presentes.

A trilha não experimentada é um fantasma. De óculos. Assombração que devora humores das estações.

:: foto: segmento da estrada Cunha-Paraty em dia de chuva, por R.I.

Wednesday, September 14, 2011

O que muda

Nos livros e filmes as grandes mudanças na vida vêm quase sempre acompanhadas de deslocamentos no espaço. Parece que a viagem para lugares distantes, ou apenas diferentes, funciona como um sinalizador inequívoco de que uma transformação de fato ocorre. O ambiente espelha o interior.

Perder-se em uma cidade, oferecer-se a toda sorte, funciona como um ato purificador – um ritual de renascimento. Assim devem querer os autores. Mas quem olha para o mutante talvez o perca em suas escolhas, suas dúvidas. Ignorará a jornada, ainda que perceba o refugiado. Ao outro persistirá a superfície, a face. Em parte do que será de novo o outro.

Será possível mudar sem vencer a barreira da pele? Sem se mover dos limites habituais, sem sair dos espaços conhecidos?

Aquele que procura parece estar um pouco além do aqui hoje. Ao mesmo tempo andou e ficou. Seu olhar parte, a paisagem ganha novo sentido. Tudo se mexe, cada coisa volta a seu lugar. Olha com estranhamento, senta-se e toma um chá enquanto pássaros cantam ao fundo.

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foto: cúpula do orquidário Ruth Cardoso, no parque Villa-Lobos, zona oeste de São Paulo, por R.I.

Friday, September 09, 2011

Concentrar diluir

Contra o ritmo veloz do fazer humano, o caminho. Diante dos dias reduzidos a minutos, me lembro de atentar para os passos, voltar aos respiros. A cidade com que tanto simpatizo precisa de tempo. De espaço para que o desequilíbrio possa se alargar em quedas, que dores se diluam na profusão dos outros afetos. Enquanto passam os tormentos. Fluentemente passam.

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foto: pedras no percurso da cachoeira e do rio Pinhalzinho, em Joanópolis, estado de São Paulo, por R.I.

Saturday, August 27, 2011

Um café para dar força

Que o café que absorves em silêncio possa sustentar a clareza e a luz que irradias, ainda que febre e tropeços arranhem pelo caminho. Mantenha-te alerta na disposição com que alegras noites e dias dos que compartilham teus passos. Acolha e aconchegue nas horas escuras com seu vigor para ajudar nas travessias.

Abraço forte.

: para A. com carinho e compaixão

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foto: detalhe do mini cafezal no Memorial do Imigrante, Mooca, São Paulo, por R.I.

Wednesday, August 17, 2011

As árvores da vida

As cenas ganham peso e significado através da câmara de Terrence Malick. Em ‘A árvore da vida’ cada pedaço do mundo passa a nos pedir mais atenção. Talvez não para caber em explicações, ainda que muitos espectadores assim o queiram. Mas simplesmente para lembrar que as coisas vão além do que se costuma pensar. Além das frações de segundo que a elas costumamos dedicar.

Olhar para as árvores como mais do que árvores, mais do que vidas. Para as águas, para a terra. Mais do que natureza, mais do que graça. Talvez mais do que comporte a tela, suporte a vida. Como um mistério em toda a sua simplicidade. Que só exige um pouco de tempo a mais para que possa se manifestar.

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foto: crepúsculo a partir da praça do por do sol, no Alto de Pinheiros, São Paulo, por R.I.

Saturday, August 13, 2011

Allegro vivace

A moça tocando violino na esquina da Paulista e Augusta, lembrei de Londres. Começo de noite, rios de pessoas entrando no metrô, luzes se acendendo, câmaras fotografando. Sexta-feira. A vida dá um nó. Eles parecem felizes.

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foto: anoitecer na avenida Paulista, por R.I.