Wednesday, June 24, 2009

Uma existência saudável


Um dia para agradecer à Terra, às árvores, aos animais, aos minerais. Para reconhecer neles minha face, minha verdadeira natureza.

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foto: detalhe do bosque do parque Burle Marx, na zona sul de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Tuesday, June 16, 2009

Em uma tarde de outono



Ela dança com seu filho no colo. Ainda é bem jovem e parece reviver noites de solteira diante da avenida. Ao seu lado, mas um pouco atrás, está o marido, com uma mochila cheia de produtos para a criança. Ele parece não se mexer – ‘tough guys don’t dance’. Também é jovem, embora talvez a paternidade lhe tenha subtraído um pouco da leveza. O pai, afinal, precisa mostrar a solidez de um guardião.

Contraídos no espaço mais junto ao prédio, de alguma forma eles se divertem em resposta ao som invasivo que amplifica as batidas dos corações. Nas estocadas em ritmo pesado na calçada poderiam sentir um pouco do seu tempo livre deslizando em meio a tanta gente desconhecida.

A dança acaba, o menino volta aos braços da mãe, o pai começa a andar embora. Vai a família, na mesma paz em que chegou.

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foto: detalhe da avenida Paulista, na região central de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Friday, June 12, 2009

O que falta


A despensa está quase vazia, como a geladeira. Faltam escolhas para o dia, mas tanto faz. Mais trabalho seria encher as prateleiras, colorir de intenso as portas que se abrem. Mais doloroso, talvez.

Os restos ainda estão inteiros e é com eles que continuo a contemplar o espaço imenso entre o esquecimento e os sabores em dissolução.

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foto: fábrica abandonada no bairro da Mooca, zona centro-leste de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Tuesday, June 02, 2009

É só o vento lá fora

[ao som de ‘Bird on a wire’, de e com Leonard Cohen]

Pode ser apenas por mais alguns minutos, enquanto não saem de cena as imagens de um passado de uma outra pessoa. Afinal, parece isso: qualquer outra pessoa, quase totalmente desconhecida. Os fantasmas são dela, os sofrimentos, memórias, e alegrias talvez.

Essas não são bem invenções de alguma noite sem televisão ou rádio. Quem não pensou nem falou sem sentir deixou a rua deserta, em noites sem comemoração. Deixou portas fechadas a leves toques. Com muitos segredos estocados querendo pular. E ainda não contente, espremeu o tempo que restava em pé para caprichar nos desenhos que guardaria ao fim de mais um dia.

Olharia para tudo com pouca sede, pouca esperança. Na desordem que o passaria para trás, como todas as outras vezes. Fecharia de novo as portas, sem encontrar os retalhos nada mais. No que vagaria passos sem ritmo nem voz, no que tocaria fundo cada nota da música que jogaria terra a seus pés.

[Ouvir Leonard Cohen na coletânea da série ‘The essential’ é partir para um encontro com aquele amigo que nunca se vai ter. Que o abraça na compreensão iluminada, que o reconhece e faz viver]

Thursday, May 28, 2009

Arte traumatismo


Quando se estuda não se cria, ele pensa. Afinal, toda vez que está imerso em um curso é como se as vias se obstruíssem, a expressão calasse. Mão única para receber ou a vigía exagerada na crítica de si mesmo. O olhar se espalha na multiplicidade do que parece não caber mais no trabalho que se fazia. Oficinas demais, tentativas paradas.

Existem os outros, é verdade. Que absorvem, que não entendem. E também compõem, com seu passo, um corpo estranho no seu drama.

Volta aos seus mesmos conhecidos enquanto a crise não o espreme. Um parco legado de rascunhos que caminham.

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foto: interior da igreja Nossa Senhora Aparecida, na avenida Brasil, na zona sul de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Tuesday, May 19, 2009

Delta

Mal chego à outra margem percebo que há novos trechos para atravessar. E mais outros. Parece a vida rodando de um jeito que me desacostumei de ver. É ela mesma ou terá alguma coisa mudado? Mas chegou a hora de desembarcar. Ou será melhor seguir, contornando os terrenos alagados?

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foto: lago do Guarapiranga a partir da barragem norte, na zona sul de São Paulo, por Ricardo Imaeda

Wednesday, May 13, 2009

IV

Início de quarto ano. Continuação de percursos pela cidade e pelos intrincados caminhos da existência. Quando embarcar não traz nenhuma segurança de encontro ou partida. Muitas paisagens podem até ser familiares. Mas quem as contempla deve ter mudado a cada vez. Assim como os textos, um pouco repetidos, tão diferentes.

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foto: interior da estação da Luz, na zona central de São Paulo, por Ricardo Imaeda