Se ainda é possível se perder nesta cidade Certas partes que ainda renderem Que seja no claro Com as placas visíveis, itinerários Vivas almas sobre as quais caminharias
Mas entendo: por mais que rode e volte e gire não é mais com centro qualquer esboço de saída que te cai ao colo, desequilibrado sob essas luzes mal claras em que caminhas
No festival de curta-metragens atualmente em cartaz na cidade há um filme de animação de Gitanjali Rao chamado ‘Printed Rainbow’. Nele se representa o cotidiano de uma senhora e seu gato, moradores de alguma grande cidade na Índia. Desde o nascer do dia até o fechar de janelas nada de muito especial acontece. As cenas surgem em tonalidades de cinza a não ser pelas caixas de fósforo multicoloridas que ela guarda em coleção. E que funcionam como motores da fantasia ou sonho. Não parece triste nem resignado. Há uma tranqüilidade cíclica em suas expressões. Os gestos parecem movidos com graça e leveza. Como se os dois planos – com/sem cores, presente/imaginado – fossem extensões naturais e complementares. Que o gato, com sua percepção aguda ao mesmo tempo lúdica, recolhe e mimetiza.
Ontem, esperando ônibus, vejo um cachorro em passeio, puxando uma senhora. Era daqueles alongados, com largas e longas orelhas quase ao nível do chão. Ele passa por mim, depois pára, volta a cabeça e me olha. Olha longamente, olha. Volta-se para a frente e segue.
‘A terra é como um pequeno barco em meio a perigosa tempestade; por isso temos que ser, nós mesmos, o melhor que pudermos ser. Lembrem-se: uma pessoa é muito importante; uma pessoa é muito.’ Thich Nhat Hanh
O que mais arrepia ouvir em sua voz é essa promessa de uma terra pacificada. Flana como rastilho de incenso, perfume de hibisco ao redor de quem medita em harmonia. E dedilha fácil, aprendo agora, o ukelele. Quase como canção de ninar, parece que brinca com as coisas simples e belas. Em sua face o rosto do pai, da areia branca daquela praia do Hawai’i, dos pássaros e árvores. Um reflexo longínquo em que posso me reconhecer.
Não é um anúncio de utopia nem desejo. Respira através do seu canto uma verdade, uma compaixão com os outros, mesmo crescidos diferentes quase hostis. Como se fizesse de sua voz um braço estendido. Uma doçura que aproxima e alerta.
Ele canta a manhã interior compartilhada.
Parece nascer junto com ‘Over the rainbow’, que desliza suave pelo espaço e tempo que nos separam.
[Agradeço ao Nelson, que me enviou o disco ‘Facing Future’, de Israel Kamakawiwo’ole, direto de Singapore]
Logo termina. Talvez essa impressão faça mais por sua vida que qualquer medicamento ou fé. E deixe pesar menos os vinte um gramas que Iñarritu defende pesar a alma. Será só então, livre da fantasmagoria animada, uma verdadeira face.
É assim, sem saber a origem – lugar e motivo – que espero. Não importam os sinais contraditórios ou a demora. Deve resultar, de alguma forma. Mas cada vez que olho, o painel toma forma diferente. Por vezes tem uma aparência festiva nas suas cores alegres; outras, escurece como dúvida. Quase um ciclo inteiro de dia-noite.
A manhã já cresce fortemente e muito já se passou. Quanta gente passa... Ninguém permanece.
Em cada canto um deserto em movimento. Assim, sem premissa ou destino. Sem mais espera. E sem conclusão
'A perfeição da pedra não vem com os golpes do machado, mas com a dança e a canção da água’ - Rabindranath Tagore :: Se houvesse água na trilha, doce e movente; o caminho não se apagasse a cada noite. Fosse uma sem mesmo fonte.
A suavidade parece mais difícil que a violência porque não se alimenta de nenhuma paixão.
... e é como um sossego sem parada, paisagem sem parada logo ali onde ninguém quer parar. Nem os ventos conseguem perturbar o vulto eterno assombrado em frente. Como noite prolongada, nada parece nascer
... mas uma luminosidade tardia captura o olhar de quem o contempla sem saber. Pára sem sossegar. Não o segue sem desviar
... quando nada mais parece passar. Ainda mais o encalhe de suas dúvidas, fixas na altura de onde perdeu o sentido do seu passo
... agora que encontra beleza. Uma beleza sem espera
......................................................................... e sem sossego
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